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Arte? Faça você mesmo

do it é um projecto de exposição “faça-você-mesmo” inventada pelo curador suíço Hans Ulrich Obrist há quase um quarto de século, que vem correndo o mundo e agora chega a Portugal. Vai desafiar a gravidade na Faculdade de Belas Artes do Porto, até 23 de Junho.

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    O corpo de Rosa Mota literalmente colado à parede, assim aprisionada a sua ânsia de movimento; a proposta de um passeio “silencioso” mas atento pela Rua de São Victor e outros lugares adjacentes ao edifício das Belas Artes; um postal panorâmico do centro histórico portuense replicado em cores naïf; uma miniatura do farol de Leça da Palmeira suspensa do tecto… São inscrições do imaginário da cidade do Porto na iniciativa do it, que esta sexta-feira, ao final da tarde, foi oficialmente inaugurada no pavilhão de exposições da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (FBAUP), na sua primeira aparição em Portugal.

    O projecto tem já uma história longa, e de sucesso. Nasceu em 1993, em Paris, quando o curador suíço Hans Ulrich Obrist, em associação com dois artistas franceses, Christian Boltanski e Bertrand Lavier, quis contribuir para a democratização do processo de criação artística, e tornar a organização de exposições mais fácil e acessível a artistas e instituições fora dos grandes centros artísticos.

    Desde essa altura, mais de duas centenas de artistas, entre eles nomes maiores da arte contemporânea – Louise Bourgeois, Liam Gillick, Richard Hamilton, Sol Lewitt, Bruce Nauman, Michelangelo Pistoletto, Rirkrit Tiravanija, para só citar alguns –, associaram-se ao projecto do it, que é como quem diz: “Faça você mesmo”.

    “Este é já um clássico da curadoria contemporânea”, explica Inês Moreira na apresentação à comunicação social da exposição na FBAUP, na véspera da inauguração. A também professora de Estudos Curatoriais na escola portuense acrescenta que o projecto tem vindo a correr o mundo, deu já origem a um volumoso livro de instruções, que na sua edição mais recente congrega ideias de 250 artistas, e estreia-se agora em Portugal, e mesmo em países de língua portuguesa – este ano, já passou por Montclair, estado americano da Nova Jérsia, e por Seul, capital da Coreia do Sul.

    do it é uma ideia pensada para circular e durar indefinidamente”, nota a curadora. Cada peça é produzida localmente, mas está obrigada a ser destruída, [uma vez] concluída a exposição – que, no caso do Porto, irá até 23 de Junho, finalizando com "uma festa-performance de destruição".

    Do livro de instruções compilado por Hans Ulrich Obrist – o actual director artístico das Serpentine Galleries, em Londres, visto como uma das figuras mais influentes no mundo da arte, passou no ano passado pelo Porto para falar de “ligações” no Fórum do Futuro e por Lisboa para falar de novos formatos de exposições a convite da ARCOlisboa –, a FBAUP escolheu 23, e desafiou alunos, professores, artistas e corpo discente a envolver-se.

    “Quisemos que o projecto fosse desenvolvido com a comunidade académica alargada e utilizar os recursos da casa”, diz Inês Moreira, acrescentando que a FBAUP decidiu tratar cada uma daquelas ideias a partir do tema da gravidade, o que foi aceite pela Independent Curators International (ICI), a instituição com sede em Nova Iorque que actualmente coordena e ratifica as propostas de cada exposição. “Eles aceitaram todas as nossas propostas nesta exposição global de interpretação local”, confirma ao PÚBLICO Lúcia Almeida Matos, directora do Museu das Belas Artes.

    Nesta ligação à realidade local, coube-lhe fazer o convite a Rosa Mota, que a atleta aceitou de imediato. “A ideia foi pegar numa personalidade e imobilizá-la contra uma parede”, diz a também professora da escola, explicando ser natural ter-se pensado em alguém da área do desporto ou da dança. “Rosa Mota foi a primeira escolha, e aceitou à primeira, com muito orgulho e grande generosidade."

    A campeã olímpica foi “colada” à parede na véspera da inauguração, e o acto foi registado num vídeo que agora, ao lado de uma espécie de “holograma” do seu corpo, reconstitui essa acção. Rosa Mota vai voltar às Belas Artes numa das próximas tardes de quarta-feira, dia em que o programa de do it apresentará performances, visitas guiadas e intervenções dos vários artistas envolvidos, segundo um calendário ainda a anunciar.

    Instruções

    Logo à entrada do pavilhão de exposições da FBAUP reinaugurado em 2015 – após a reabilitação projectada pelos arquitectos Carlos Guimarães e Luís Soares Carneiro sobre o edifício original de Manuel Fernandes Sá (1954) –, um vídeo a preto-e-branco, Listen (feito a partir de uma ideia de Max Neuhaus), regista um passeio pelas ruas envolventes das Belas Artes. Feito em parceria com a agência The Worst Tours – explica Lúcia Almeida Matos –, este trabalho será completado com uma visita guiada para estudantes Erasmus a lugares que normalmente estão fora dos roteiros turísticos tradicionais. “Queremos levar as pessoas a lugares alternativos e a ouvir os sons reais da cidade: o barulho de uma oficina de automóveis, o ruído de uma fábrica de mármores. ”, explica a directora do museu.

    Outra vista do Porto, centrada na zona dos Clérigos/Cadeira da Relação, é o trabalho do pintor e professor Carlos Carreiro, que interpretou, com as suas cores e formas naïf, uma instrução de Richard Hamilton, um dos pais da Arte Pop – e que, de resto, foi de algum modo pioneiro deste modelo de criação e intervenção artística com a sua exposição Arte por telefone, realizada em Chicago em 1969, e “ditada mesmo ao telefone a partir de Londres”, recorda Lúcia Almeida Matos.

    Num dos cantos do espaço de 280 metros quadrados de exposição, a jovem Patrícia Matos, actualmente a fazer um mestrado sobre Comida e Arte, actualiza as “instruções gastronómicas” do argentino Rirkrit Tiravanija (outra presença no Fórum do Futuro, em 2015). Dentro de um frigorífico forrado a ouro, “para criar um visual Moët & Chandon”, diz a artista, embalou em vácuo os ingredientes de uma sopa picante: cebola caramelizada, alho, camarão, pickles… “Tentei adaptar esta receita feita em 1994 a um conceito mais gourmet, com as embalagens de vácuo a substituirem os fracos daquela altura”, explica Patrícia Matos.

    Há ainda marcas locais, portuenses, nas fotografias dos alunos da Escola Primária do Campo 24 de Agosto feitas pela professora Susana Lourenço Marques, a partir da ideia de Christian Boltanski – e que no fim da exposição serão oferecidas a cada uma das crianças, assinadas pelos dois autores. E nos 94 quilos de rebuçados Flocos de Neve (oferecidos pela fábrica Vieira de Castro), que recordam o peso do corpo do namorado do artista cubano Félix González-Torres (1957-1996) à altura da sua morte, em 1991. Ou na mesa de lousa de Valongo onde Clara Silva inscrevia ainda, na véspera da inauguração, a ideia de Jimmie Durham de registar, nalguns casos em escrita invertida, os nomes das peças menos notadas, invisíveis mesmo, que fazem também esta exposição no pavilhão da FBAUP: um sensor, uma fita-cola de papel, um risco na parede, uma marca no soalho, um fio de pesca…

    Uma forma de “lançar um olhar crítico, distanciado, sobre a materialidade das próprias galerias” como palco das manifestações artísticas, notava Inês Moreira.

    E também o PÚBLICO vai "entrar" na exposição: respondendo a uma “instrução” do artista e performer italiano Michelangelo Pistoletto (que esta semana participou em Lisboa no programa de re-inauguração do MAAT), a equipa responsável por do it escolheu o jornal para concretizar Sculpture for scrolling, uma bola feita com jornais usados que, em datas também ainda a anunciar, irá sair das Belas Artes para um passeio-performance pelas ruas do Porto.

    Um espanta-espíritos em tons de vermelho

    A ideia partiu da artista norte-americana Alison Knowles (1933) – uma das fundadoras do movimento Fluxus, no início da década de 60 –, que propõe que cada doer (os autores locais do projecto do it) traga de casa, ou produza mesmo, um objecto de cor vermelha com que se identifique ou que tenha algo a ver com a sua vida. E os responsáveis da FBAUP decidiram alargar o âmbito do desafio de do it envolvendo quase quatro dezenas de funcionários da escola.

    O que não pareceu difícil: “A maior parte das pessoas está habituada a lidar com objectos artísticos no seu dia-a-dia. Sentiram-se, por isso, logo motivados para participar”, explica Luís Nunes, um dos responsáveis técnicos do museu envolvido na montagem da exposição.

    E como a ideia base era desafiar a gravidade, o corpo discente reuniu um conjunto de peças que foram suspensas do tecto do pavilhão. “Trouxeram coisas inesperadas”, descreve Luís Nunes, citando a réplica em miniatura do farol [de Leça da Palmeira?], que até acende e apaga, e foi feita de propósito para a ocasião pelo funcionário da secretaria; o velho disco em vinil dos Kraftwerk, Man Machine (1978), da menina da biblioteca; a casaca de teenager da senhora dos recursos humanos; a carteira de mão da Dona Isabel; o extintor do Sr. António, que é o responsável pela manutenção do edifício; mas também um pião, um filtro, uma moto4 de criança, um saco de pão… Tudo vermelho, em suspensão, como um grande espanta-espíritos a mostrar que a arte não é exclusiva de espíritos ditos superiores, mas pode sair da casa de cada um.

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