Almoço de domingo | O TEMPO

Almoço de domingo

Costumo dizer que as pessoas com mais de 40 anos, que conheceram e viveram um mundo
sem internet, sem celular e sem TV a cabo, fazem parte de uma geração privilegiada. Privilegiada porque experimentaram o antes e depois de tudo isso, e porque presenciaram muitas mudanças históricas, num espaço de tempo muito curto. Justamente por isso, essa geração lida e reage de forma diferente daqueles que já nasceram nesta nova aldeia global.

Impossível não vibrar com as maravilhas que a internet nos tornou acessíveis, como fazer um tour pelos museus do mundo inteiro sem sair casa, ou conhecer lugares em que nunca estivemos (e talvez nem vamos estar), simplesmente arrastando o mouse, ou trocar uma mensagem instantaneamente com alguém que está do outro lado do planeta. Impossível não fazer reverências ao santo Google, que em um toque nos responde literalmente tudo em segundos, eliminando a necessidade de decorar um monte de coisas e de manusear enciclopédias enormes e pesadas, tudo que foi necessário um dia.

É inegável, portanto, que vivemos com muito mais conforto hoje do que há 40 anos. Mas, como tudo na vida tem bônus e ônus, não há como negar que toda essa parafernália tecnológica também deixou a nossa vida mais acelerada e, em alguns aspectos, virada de cabeça pra baixo. Mudanças mais perceptíveis e sensíveis a esta geração, que experimentou o mundo sem tanta pressa.

Fico pensando em quantas coisas deixamos de fazer, outras tantas que eram melhores do jeito de “antigamente”, e todas as outras que não têm mais lugar na vida de hoje. Me lembro, por exemplo, dos tradicionais almoços de família aos domingos. Geralmente na “casa da mamãe”, eles eram sagrados. Era um tempo em que a família estava sempre em primeiro lugar e estar junto era prazer e, não, obrigação. Como as famílias eram mais numerosas, o encontro sempre ganhava ares de evento, com todo mundo falando alto e ao mesmo tempo, e muita comida.
Geralmente, uma miscelânea de pratos e sobremesas, já que agradar a todos individualmente era quase que obrigatório para a dona da casa.

Agora, além de raros, geralmente acontecem em restaurantes. Viraram compromisso de hora marcada e não se prolongam durante toda a tarde porque o domingo também tem de ser dividido com os amigos, e até com o trabalho. Os mais jovens não comparecem e, quando vão, preferem ficar ‘teclando’ em seus supercelulares a conversar.

E não são só os almoços de domingo que me dão saudade. Sinto saudade de não me sentir obrigada a ficar conectada 24 horas, sinto saudade de circular por aí sem ser filmada, sinto saudade de simplesmente poder sumir sem ser localizada. Sinto falta das coisas boas da vida de “antigamente”.

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