A introdução da carne no primeiro ano de vida

A introdução da carne no primeiro ano de vida

É durante o primeiro ano de vida que a criança experimenta as maiores mudanças. Passa do útero para o mundo, vivencia dor e alegria, triplica de peso, degusta novos sabores.

A alimentação, antes basicamente reflexo da dieta da mãe absorvida através do cordão umbilical, passa pelo leite materno, seguido, então, dos alimentos sólidos.

A introdução precoce ou tardia de “alimentos do desmame” – assim chamados, pois passam a fazer parte da dieta da criança na fase de transição entre o aleitamento materno e a alimentação da família – pode acabar por comprometer o desenvolvimento infantil. É nesta fase que começa a formação dos hábitos alimentares que acompanharão as crianças para o resto da vida.

Dentre os alimentos que compõem uma alimentação balanceada, a carne exerce papel vital. Considerada fonte de proteína, participa da multiplicação das células, portanto essencial para o crescimento da criança, e também fonte de ferro, nutriente importante para a formação das células vermelhas do sangue, prevenindo a anemia. Sendo assim, a falta desse mineral no organismo provoca desde fadiga, palidez e taquicardia, até influência na capacidade intelectual e motora, sem certeza quanto à reversibilidade mesmo depois de longo período.

A carne bovina é composta em média de 70% de água, 19% de proteína, 1% de carboidrato e 1% de cinza. É rica em minerais, como ferro, fósforo e zinco, além de vitaminas do complexo B. O conteúdo de gordura varia amplamente, entre 1 e 25%. A quantidade de gordura “visível” presente na carne é um excelente indicador de seu valor energético. Esta gordura pode ser, se necessária, reduzida consideravelmente por fervura e eliminação da água de cocção. A textura é dada, principalmente, pelo estado das suas proteínas. Na carne dura, por exemplo, as fibras estão contraídas e conseqüentemente resistentes à mastigação, pela forte ligação entre suas proteínas.

A carne é quase que completamente digerida (cerca de 97% das proteínas e 96% das gorduras), sendo bem utilizada pelo organismo humano.

Para a escolha do tipo de carne que estará presente na alimentação da criança, deve-se levar em consideração o teor de ferro, que não é igual para todas. A carne bovina é a que possui melhor absorção do ferro. Também o uso de vísceras, como rins, fígado e coração, deve ser encorajado devido ao seu conteúdo mineral e vitamínico, além de conterem proteínas de alta qualidade.

A carne de boi magra possui um menor teor de gordura e provoca menos reação alérgica, sendo melhor indicada sua introdução no primeiro ano de vida.

Portanto é de extrema importância que a carne esteja presente na vida da criança logo na primeiras papinhas, para que ela inicie a aquisição de um hábito alimentar saudável.

Outras considerações sobre o assunto

Nesta época, frutas, verduras, legumes, leite e carne passam a fazer parte da dieta do dia-a-dia visando garantir a ingestão de vitaminas, minerais, carboidratos, gorduras e proteínas. Porém, na prática, pouco se observa uma alimentação equilibrada. Como a deficiência de ferro ocorre principalmente nos primeiros dois anos de vida, é de fundamental importância a introdução da carne nas primeiras papinhas e posteriormente nas principais refeições.

Para prevenir esta deficiência, é necessária a introdução de alimentos ricos nesse nutriente, tais como leguminosas e carnes, sendo a última fonte principal visto que contém grande quantidade do mineral disponível para o organismo.

O uso da carne no primeiro ano de vida: quando e como?

Alimentar crianças no primeiro ano de vida pode colocar os pais, muitas vezes, em situação de dúvida. A preocupação em fornecer todos os nutrientes em quantidades adequadas ao desenvolvimento saudável, deve ser acompanhada de cuidados com aspectos relacionados à importância do aleitamento, a habilidade mastigatória do bebê, sua tolerância gástrica, e capacidade de digerir e aproveitar os alimentos. É também nesta fase que o bebê tem o primeiro contato com uma gama muito variada de sabores, e é importante que isto seja feito de maneira gradual e programada, para tirarmos o melhor proveito do imenso apetite comum nesta fase do desenvolvimento. Assim, a criança terá maior chance de desenvolver preferências sensoriais diversificadas, apreciando maior variedade de sabores, cores e texturas, e por sua vez ampliando suas opções alimentares.

Espera-se que o aleitamento materno conhecido como “exclusivo”, ou seja, não acompanhado de nenhum outro alimento, perdure até o sexto mês de idade do bebê. Eventualmente, isto não é possível, e a introdução de alimentos diferentes do leite humano precisa ocorrer precocemente.

Respeitando as particularidades que devem ser avaliadas pelo pediatra em cada caso, e que podem exigir a participação de um nutricionista, após o sexto mês inicia-se, portanto, o oferecimento de alimentos para o bebê. Estes profissionais poderão orientar adequadamente sobre o melhor momento para a introdução gradual de alimentos, atentos às características de desenvolvimento de cada criança.

Uma das preparações mais comuns até o final do primeiro ano é, sem dúvida, a papa salgada. Sua composição deve incluir sempre um cereal, um ou dois legumes, folhas e, sempre, carne. Ao contrário do que muitos acreditam, o uso do óleo e do sal não pode ser negligenciado, dadas as necessidades nutricionais do bebê – que exigem o uso de óleo vegetal e do sal iodado, em quantidades adequadas para não causar ingestão excessiva de energia e de sódio.

O procedimento de preparo é simples: em uma pequena quantidade de óleo vegetal (pode-se iniciar com cerca de 1 colher de chá, progredindo a 1 colher de sobremesa até os 12 meses), refogar cebola bem picadinha (aproximadamente 1 colher de sobremesa rasa), sempre cuidando para que o óleo não fique muito aquecido, e faça fumaça: isto deve ser evitado. Refoga-se então dois pedaços pequenos de carne bovina magra picadinha, ou o equivalente a duas colheres de sopa de carne moída, um tubérculo (que são as raízes ricas em amido, como a batata ou a mandioquinha) e um legume (como cenoura, abóbora em pedaços, abobrinha, beterraba, entre outros); acrescenta-se cerca de 1 colher de sopa rasa de cereal (arroz, aveia, macarrão ou outro) pequena quantidade de água, e sal, suficiente para ser percebido, mas sem “salgar” (uma “pitada”, ou pouco menos do que meia colher de café), deixando cozinhar até que os ingredientes fiquem macios.

Para cortes de carne mais ricos em colágeno, e menos macios, como o músculo e cortes de dianteiro, pode-se fazer a cocção da carne em panela de pressão. Os vegetais devem ser colocados ao final do preparo da carne, pois cozinham depressa, e o menor tempo de aquecimento preserva mais os nutrientes. A cada dois dias, é interessante acrescentar uma folha verde – ou meia folha, para os vegetais muito grandes (como couve, mostarda, escarola, espinafre), picada ao final do cozimento, pois fica macia mais rápido que os demais ingredientes.

Quando tudo estiver cozido, amassa-se com um garfo, e oferece-se com colher pequena, como a de chá no início e de sobremesa mais tarde. As fibras da carne podem e devem ser consumidas e, caso não haja qualquer restrição à deglutição e a criança já tenha 6 meses ou mais, não há necessidade de liquidificar a papinha.

Para garantir a qualidade da alimentação, é interessante variar bastante todos os ingredientes, desde que sempre se mantenha o conjunto carne, tubérculo, legume e cereal, com óleo e sal. Antes de cozinhar, os vegetais devem ser lavados em jato de água limpa com escova de cerdas macias e imersos, inteiros, em solução de hipoclorito (10 gotas por litro) por 15 minutos, sendo novamente lavados antes de ir para a panela. A carne bovina pode ser substituída, uma ou duas vezes por semana, por outra carne, inclusive peixe – desde que sem espinha-, e após 10 meses de idade, também por ovo. Vísceras também devem ser oferecidas, como o fígado, com freqüência quinzenal.

A presença da carne na alimentação do primeiro ano de vida da criança garantirá o fornecimento de proteína de boa qualidade, ferro e zinco, que são importantes para diversas funções metabólicas, com destaque para o papel sobre a prevenção da anemia, no caso do ferro, e para garantir o adequado desenvolvimento e prevenção contra doenças, no caso do zinco. Vitaminas do complexo B, necessárias para a produção de energia e saúde das células (Vit. B2), metabolismo de outros nutrientes, como caboidratos, lípides e proteínas (niacina), de proteínas e hormônios (Vit. B6), para o sistema nervoso central e imune (pantotenato), ossos, intestino e para o aproveitamento do ferro (Vit. B12), também estão presentes na carne.

Mas mesmo sem saber da importância inegável de uma boa nutrição, quem nunca provou uma papinha infantil bem preparada, não sabe o que está perdendo!

Bibliografia

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2000.

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1 Universidade Federal de São Paulo

Membros do Comitê Técnico do SIC – Serviço de Informação da Carne
Com Colaboração de Ana Paula Población

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