Um camarão na moranga, com saudades do Karam e do Bellenda

Um camarão na moranga, com saudades do Karam e do Bellenda

Bons tempos aqueles dos anos 80. Primeiro, porque éramos todos 30 anos mais jovens. Depois, pois não haver essa preocupação com o futuro que o peso da idade nos impõe. Se não der certo na hora, depois se resolve. Agora o futuro pesa, se não der certo. Naquela época sempre havia um tempo de recomeço.

Foi quando me descobri cozinheiro. Sim, eu podia, era só arriscar, errar ou acertar. E começamos a formar um grupinho de degustação, juntando os amigos mais próximos. Basicamente Luiz Cesar Bellenda, ilustrador, designer gráfico, chargista e cartunista; e Manoel Carlos Karam, escritor, jornalista, teatrólogo e companheiro de redação de O Estado do Paraná (onde vivi quase uma vida quase toda, de 38 anos, sem trairagem). Karam que já se foi, infelizmente, deixando um grande vazio na cultura curitibana e um aperto no coração dos amigos. De vez em quando, Orlando Kissner, fotógrafo, na época também do Estadinho e que ainda conquistaria o mundo fotografando esportes para o Estadão e para agências internacionais.

Funcionava assim: alguém de nós via uma receita, discutíamos sobre a possibilidade de executá-la (eu, no caso) e partíamos para os “finalmentes”. Karam não tinha carro, não dirigia. E na época eu ia muito de moto ao jornal (sim, tenho até hoje) e, nesses momentos especiais, costumava trazê-lo na garupa. Como a instabilidade do tempo em Curitiba costuma nos pregar peças, ele comprou um casaco de couro, para não ser surpreendido nesses deslocamentos. Deu certo. Conforme o dia (ou a noite, pois era sempre depois do fechamento do jornal), casaco de couro e garantia de bem estar.

E essa receita quem achou foi exatamente o Karam. Era uma revista Gourmet e ele me veio com a proposta: “encara um Camarão na moranga?” Nunca tinha ouvido falar, mas dei uma olhada e achei que seria possível. Decidimos fazer dali dois ou três dias, um sábado, quando o fechamento da edição era mais light. Tempo para avisar o Bellenda (não sei se o polaco Orlando estava nessa), comprar os ingredientes e armar o circo.

Nem era moda ainda. Viria a ser campeão das paradas gastronômicas alguns meses depois, difundido entre os restaurantes de frutos do mar. Mas, até então, mistério total.

Receita estudada, ingredientes comprados e chegou o momento. Um petisco aqui, outro ali enquanto alguém esfaqueava a moranga para poder extrair as sementes. Forno ligado, recomendações seguidas, dali uma hora estava macia, pronta para receber o recheio – que tinha o detalhe do catupiry, quase como um reboco especial para o interior das paredes da moranga.

Dali uns tempos – e algumas cervejas a mais, como bem da época – saía do forno. Exuberante, borbulhando, o toque gratinado na superfície explorando a gula.

O acompanhamento era um arroz branco. Tiramos a moranga do forno, todos nos servimos do recheio e achamos maravilhoso, mais do que especial. Cada um comeu e repetiu e repetiu.

Aí, quando estávamos todos satisfeitos, já nos levantando, veio alguém e perguntou: “mas qual é a função da moranga em tudo isso?” Fui dar uma raspadinha na polpa, já quase sem nada de recheio, e ela simplesmente se desmanchava. E estava deliciosa. Todos voltaram à mesa e se sentaram novamente. Liquidamos com a moranga, com o que ainda havia do recheio. Foi uma sensação incrível a compensar nossa ignorância – claro que se a moranga estava ali seria para ter alguma finalidade.

Desde então esse Camarão na moranga ficou marcado pelo sabor e pela sensação de novidade. Fizemos mais umas duas ou três vezes nesses anos todos, mas de um tempo para cá ficou esquecido.

Até que veio a lembrança na semana. Filho, nora e neto vindo para cá, um bom prato para recebê-los. E fomos buscá-lo, lá nos alfarrábios. Com direito à receita original e todos os seus desdobramentos.

Não é por nada, mas ficou uma delícia (ainda mais com o carinho dos hóspedes a matar saudades).

De entrada, uma Salada de batatas e maçãs à indiana – com maionese de curry, tudo muito suave e do jeito do verão que está chegando.

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