2012 – Cinema com Rapadura

Без кейворда

Hollywood parece ter um fetiche pelo fim do Planeta Terra. De imensos asteróides que atingem o mundo, como em “Armageddon” e “Impacto Profundo”, até uma selvagem invasão alien, como em “Independence Day”, a indústria cinematográfica americana sempre procurou fazer suas próprias versões sobre o fim dos tempos. Mesmo que os três filmes citados terminem com um final feliz açucarado, assim como tantos outros, nunca faltou pretensão aos roteiristas, diretores e produtores da terra do Tio Sam. Recheadas de efeitos especiais de última geração, mas donas de tramas sem inspiração, estas películas de grande orçamento procuram atrair aquele público pouco exigente que se interessa principalmente por ótimas cenas de ação.

Se há um diretor expoente deste estilo catastrófico de se fazer filmes, este é Roland Emmerich. Alemão de nascença, mas americano de coração (vide o patriotismo que exala em suas produções), o cineasta tem em seu currículo longas-metragens como o próprio “Independence Day”, “Godzilla” e “O Dia Depois de Amanhã”, ou seja, megalomania sobra aos montes em seus projetos. No mais novo deles, Emmerich se supera. Dispensando razões extraterrestres ou ambientais, o diretor prova que sua intenção nunca foi questionar, mas apenas exagerar, explorando todas as possibilidades que os efeitos especiais proporcionam.

Em “2012”, a história tem como protagonista o pai divorciado Jackson Curtis (John Cusack). Diferente de outros longas do gênero, ele não tem ligação nenhuma com os estudos sobre o fim dos tempos ou faz parte de uma força armada contra os invasores. É apenas um escritor mal sucedido. Afastado dos dois filhos que teve com sua ex-esposa Kate Curtis (Amanda Peet), Jackson tenta se aproximar deles levando-os para uma região isolada dos Estados Unidos que sempre foi visitada pela família com o objetivo de acampar.

Chegando lá, uma cerca de “proibido ultrapassar” não impede que os três descumpram as ordens e constatem que um antigo rio secou totalmente. Eles são então capturados pelo exército americano e depois liberados. Sem entender a reação militar, Curtis é alertado por Charlie Frost (Woody Harrelson), um lunático apresentador de um programa de rádio, de que aquela área deve em breve se tornar o maior vulcão em erupção do mundo e que esse fato faz parte de uma série de tragédias que acometerá o mundo até o dia 12 de dezembro de 2012, terminando com a destruição total do planeta.

Enquanto isso, na Casa Branca, o geólogo Adrian Helmsley (Chiwetel Ejiofor), que desde 2009 trabalha para o governo americano no que concerne a data fatídica, acompanha pela televisão catástrofes tendo início por todo o mundo. Grandes terremotos causam enormes rachaduras por diversas cidades da Terra, fazendo pedacinhos até do Cristo Redentor. Helmsley, sob a tutela do Presidente Thomas Wilson (Danny Glover), integra uma equipe que tem a função de resgatar o maior número de humanos possível para uma eventual colonização. Sentindo na pele os efeitos da proximidade do fim, Jackson Curtis enfrentará os mais apocalípticos dos fenômenos e, munido de um mapa que tem como país central a China, tentará que sua família consiga embarcar nesse projeto idealizado pelos Chefes de Governo de vários países.

Roland Emmerich dessa vez justifica o fim do mundo via estudos científicos e crenças antigas. O calendário maia indica que não há nada além do dia 21 de dezembro daquele ano, e as profecias são confirmadas pelo aquecimento exagerado da crosta terrestre. Como consequência, a superfície do planeta irá se partir, causando terremotos e tsunamis. Por mais que essa justificativa seja um tanto atraente, principalmente por inserir História em sua trama, a película, assim como a maioria dos filmes de Emmerich, extrapola os limites. Assinado por ele mesmo, em parceria com Harald Kloser, o roteiro se excede em todas as cenas. Como se não bastasse destruir o mundo, tinham que fazer algo incrivelmente inverossímil, tanto que a “2012” deve ser concedido, com folga, o título de filme mais mentiroso de todos os tempos.

Sem ter pena da equipe de efeitos visuais do longa, a dupla de roteiristas procura inserir a cada dez minutos, no máximo, uma grande tragédia. É como se eles soubessem que a história dos personagens não se sustentaria sozinha e para isso compensam com sequências como a de mais uma destruição da Casa Branca. No entanto, também sobra para os astros do filme. Eles, em especial John Cusack, têm de estar presentes em todo grande evento que acontece, sempre escapando por um triz da morte. A sequência em que Jackson Curtis resgata a sua família e foge de avião é a maior expoente dos exageros do enredo, mas disputa de perto com uma outra que conta com uma participação especial de Woody Harrelson.

Por mais que estas cenas beirem muitas vezes o cômico de tão mentirosas, elas são a alma do filme. Não haveria “2012” sem uma correria insana ou cenários grandiosos. Afinal, nunca em uma produção de Roland Emmerich os personagens foram tão desinteressantes. Rasos como só um blockbuster americano consegue construir, eles não nos passam nenhum carisma, nem nos deixam furiosos, com exceção do personagem de Oliver Platt, que obtém êxito como o vilão da história. Assumindo estereótipos, o roteiro deixa fácil para o público adivinhar o destino de cada um desses papéis: quem vai morrer, quem vai sobreviver, quem vai ser esquecido pela história, quem vai se apaixonar…

A direção da película funciona apenas nas cenas de ação. Mas mesmo assim poderiam ser bem mais eletrizantes. Roland Emmerich opta por planos comuns e tomadas sem inspiração. Se a edição o salva de um cataclisma, a trilha sonora e a fotografia tentam empurrá-lo buraco abaixo. Mas quem realmente resgata a todos são os efeitos especiais, a razão pela qual produziram o filme e pela qual a maioria do público vai conferi-lo. Nisso, “2012” jamais deixa a desejar. Por mais que não chegue ao nível de qualidade da franquia “Transformers”, a película atende às expectativas da audiência, guardando sua melhor parte para o final, justamente quando o foco não são as destruições, mas a salvação da humanidade. Chega a ser irônico, não?

Em relação ao elenco, todos são prejudicados pelos absurdos do roteiro, escapando poucos do fracasso. John Cusack, ator de renome mas que ainda almeja um reconhecimento maior da crítica, surge inexpressivo, o que é normal para protagonistas de blockbusters. Completando a família Curtis temos os filhos Lilly (Morgan Lily) e Noah (Liam James) e a esposa Kate, que cumprem a sua função, com destaque para a performance de Amanda Peet. Ela é a única que parece realmente abalada com as tragédias. Passando para o elenco governamental, temos o sucesso dos discretos e eficientes Chiwetel Ejiofor e Thandie Newton, como a Primeira Filha, e o fracasso de Danny Glover como o Presidente americano mais ético e religioso que o cinema já viu. Entre os coadjuvantes, as atuações são desastrosas, dando-se devida ênfase a Woody Harrelson, no pior papel de sua carreira.

Ao longo de seus 158 minutos de duração, que aliás passam muito rápido, “2012” explora com intensidade jamais vista o fetiche hollywoodiano pelo fim do mundo. Dessa vez, não sobra praticamente nada. Mas o fracasso dessa nova empreitada de Roland Emmerich é tão grande que ele consegue aniquilar até o pouco de fé que os seus antigos apreciadores ainda tinham sobre ele. Recentemente, ele afirmou que este filme deve encerrar sua trilha de destruição nas telas. Talvez agora ele se foque em reconstruções, começando pela sua carreira.

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