O vinho tinto é mais saudável que o branco? Pode ser mais fama do que ciência – Viral

O vinho tinto é mais saudável que o branco? Pode ser mais fama do que ciência

Quando, à mesa, a pergunta é “tinto ou branco?”, há quem não tenha dúvidas em escolher o que julga ser mais saudável: o tinto. Bebendo com moderação, o vinho tinto é apresentado como sendo o que mais benefícios traz à saúde. Mas será que a ciência confirma esta fama?

São vários os estudos que se focam nos benefícios do vinho tinto na saúde, vários afirmam existir benefícios no consumo moderado desta bebida alcoólica. Na origem destas conclusões estão os polifenóis – componentes de origem natural que estão presentes em vários alimentos como o chocolate negro, bagas de fruta, chá, entre outros. Estes elementos, que são encontrados em maior concentração no vinho tinto do que no branco, podem ter efeito na prevenção de doenças cardiovasculares.

Porque é que o vinho tinto tem mais polifenóis do que o branco?

Essa questão está associada com o processo de produção dos dois tipos de vinho. Enquanto no tinto, a fermentação ocorre com a casca e a grainha das uvas, no vinho branco estes dois elementos são removidos antes de iniciar o processo de fermentação. Desta forma, os tintos contêm mais componentes naturais – em particular os polifenóis.

Um dos polifenóis mais identificado nos vinhos tintos é o resveratrol. Segundo o “Wine Spectator“, vários estudos concluíram que este componente tem efeito na prevenção de doenças cardiovasculares e na inibição o crescimento de células cancerígenas. Há ainda estudos onde se afirma que o resveratrol pode ter impacto também no combate às doenças degenerativas, tais como Alzheimer, e que pode ajudar a regular a quantidade de insulina, evitando o aparecimento de diabetes tipo 2.

“O problema com a campanha generalizada do resveratrol é que muitos dos efeitos benéficos desta substância em particular foram identificados em tubos de testes em laboratório e em estudos com animais, peixes, etc.”, afirma Erik Skovenborg, fundador da Medical Alcohol Board da Escandinávia, em declarações ao “The Wall Street Journal“. Ou seja, muitos estudos propunham-se a analisar os efeitos do resveratrol em laboratório e não os benefícios deste componente enquanto elemento do vinho.

Um estudo publicado em 2015 na revista “Annals of Internal Medicine” apresentava uma comparação entre quem bebia vinho tinto e quem optava por vinho branco: enquanto os primeiros registavam um maior nível de colesterol HDL, os segundos tinham níveis de açúcar no sangue melhores.

É importante sublinhar que os estudos científicos na área da nutrição têm limitações: não permitem identificar uma relação de causa-efeito entre o consumo de um alimento e um determinado benefício ou prejuízo da saúde, uma vez que, para isso, seria necessário desenvolver um ensaio clínico. Neste tipo de estudos é necessário um grupo de observação – onde as pessoas ingerissem de forma continuada um alimento durante um determinado período de tempo – e um grupo de controlo – onde os participantes não ingerisse esse alimento nenhuma vez –, explicou ao Polígrafo o nutricionista Vitor Hugo Teixeira, nutricionista do Futebol Clube do Porto e professor na Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto, no âmbito de um artigo sobre os impactos do leite.

Por essa mesma razão, Andrew Waterhouse, químico de vinho e diretor do Robert Mondavi Institute for Wine and Food Science da Universidade da Califórnia, alerta que os benefícios apontados ao vinho tinto podem ser especulativos. Em declarações ao “The Wall Street Journal”, o especialista reconhece a existência de artigos que identificam a presença de resveratrol como benéfica para a saúde. “Existem muitos estudos que sugerem que uma dieta rica em polifenóis tem benefícios para a saúde”, afirma Waterhouse, defendendo que a necessidade de desenvolver “um estudo epidemiológico direto (uma comparação entre pessoas que bebem vinho tinto versus que não bebem, e os resultados que têm) que mostre que as pessoas que bebem vinho tinto são mais saudáveis”.

Quando se faz uma comparação entre pessoas que bebem vinho tinto e pessoas que preferem vinho branco é ainda preciso admitir a possibilidade de haver elementos de confusão nos dados recolhidos. Erik Skovenborg sublinha os dados podem ser influenciados pelas “possíveis escolhas de estilo de vida das pessoas que preferem vinho branco versus das pessoas que preferem vinho tinto”.

Outro fator que poderá também influenciar a análise é a quantidade de bebida ingerida. Um estudo publicado na revista “Substance Use & Misuse“, em 2013, avança que as pessoas que bebem vinho branco são 9,2% mais generosas a encher o copo do que os que preferem tinto. Esta variação está associada com o baixo contraste existente entre a cor do vinho e a do copo.

Concluindo: há estudos que sugerem a existência de alguns benefícios para a saúde no consumo moderado de vinho tinto devido à presença de resveratrol – uma substância de origem natural que também existem no vinho branco, mas em menor quantidade. No entanto, são poucos os estudos que comparem a ingestão de vinho branco com a de vinho tinto, pelo que, à luz do conhecimento atual, não se pode afirmar perentoriamente que um é mais saudável que outro.

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